Este dom confere-nos um conhecimento amoroso de Deus, bem
como das pessoas e das coisas criadas na medida em que se referem a Ele.
Está intimamente unido à virtude da caridade.
EXISTE
UM CONHECIMENTO de Deus e do que se refere a Ele a que só se chega pela
santidade. O Espírito Santo, mediante o dom da sabedoria, coloca-o ao
alcance das almas simples que amam o Senhor: Eu te glorifico, Pai,
Senhor do céu e da terra – exclamou Jesus diante de umas crianças –
porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos
pequeninos l.
E uma sabedoria que não se aprende nos livros, mas que é comunicada à alma pelo próprio Deus, que ilumina e ao mesmo tempo cumula de amor a mente e o coração, a inteligência e a vontade; é um conhecimento mais íntimo e saboroso de Deus e dos seus mistérios.
“Quando temos na boca uma fruta, apreciamos o seu sabor muito melhor do
que se lêssemos as descrições que dela fazem todos os livros de
Botânica. Que descrição se pode comparar ao sabor que experimentamos
quando provamos uma fruta? Do mesmo modo, quando estamos unidos a Deus e
o saboreamos por íntima experiência, isso nos faz conhecer muito melhor
as coisas divinas do que todas as descrições que os eruditos e
os livros dos homens mais sábios possam fazer”2. Este é o conhecimento
que se experimenta de modo particular pelo dom da sabedoria.
De
uma maneira semelhante à de uma mãe que conhece o seu filho pelo amor
que lhe tem, assim a alma, mediante a caridade, chega a um conhecimento
profundo de Deus que obtém do amor a sua luz e o seu poder de penetração
nos mistérios. É um dom do Espírito Santo porque é fruto da caridade
infundida por Ele na alma e nasce de uma participação na sua sabedoria
infinita. São Paulo orava pelos primeiros cristãos, para que,
poderosamente robustecidos pelo seu Espírito […], arraigados e
alicerçados na caridade, possais compreender qual a largura e o
comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer enfim a caridade de
Cristo, que desafia todo o conhecimento3. E um compreender alicerçados
na caridade’, é um conhecimento profundo e amoroso.
Não podemos
aspirar a nenhum conhecimento mais alto de Deus do que este conhecimento
saboroso, que enriquece e facilita a nossa oração e toda a nossa vida
de serviço a Deus e aos homens por Deus: A sabedoria – diz a Sagrada Escritura – vale mais do que as pérolas, e jóia alguma a pode igualar4. Eu a preferi aos cetros e aos tronos, e considerei a riqueza como um nada em comparação com ela […]. Todo o ouro ao seu lado é apenas um pouco de areia, e a prata diante dela é como lama
[…]. Com ela vieram-me todos os bens […] porque é a sabedoria que os
traz […]. Ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os que a
adquirem preparam-se para ser amigos de Deus.
Todo o ouro ao seu lado é apenas um pouco de areia, e a prata diante dela é como lama
Mediante
este dom, participamos dos mesmos sentimentos de Jesus Cristo em
relação aos que nos rodeiam. Ensina-nos a ver os acontecimentos dentro
do plano providencial de Deus, que sempre se manifesta como nosso Pai.
INTIMAMENTE
UNIDO à virtude teologal da caridade, o dom da sabedoria confere à alma
um conhecimento muito especial de Deus, que a leva a possuir “uma certa
experiência da doçura de Deus”6, em si mesmo e nas coisas criadas,
enquanto se relacionam com Ele. “Entre os dons do Espírito Santo, diria
que há um de que todos nós, cristãos, necessitamos especialmente: o dom
da sabedoria, que nos faz conhecer e saborear Deus, e nos coloca assim
em condições de poder avaliar com verdade as situações e as coisas desta
vida”7. Com a visão profunda que este dom confere à alma, o cristão que
segue de perto o Senhor contempla toda a realidade com um olhar mais
alto, pois participa de algum modo da visão que Deus tem de todas as
coisas criadas. Julga tudo com a clareza deste dom.
Os demais
homens são então para ele uma oportunidade contínua de praticar a
misericórdia e de exercer um apostolado eficaz aproximando-os do Senhor.
Compreende melhor a imensa necessidade que os seus parentes, colegas e
amigos têm de ser ajudados a caminhar para Cristo. Vê-os como pessoas
urgentemente necessitadas de Deus, como Cristo as via.
Iluminados
por este dom, os santos entenderam no seu verdadeiro sentido os
acontecimentos desta vida: tanto os que consideramos grandes e
importantes como os aparentemente pequenos. Por isso, não chamaram
desgraça à doença e às tribulações que tiveram que sofrer; compreenderam
que Deus abençoa de muitas maneiras, e freqüentemente com a Cruz;
sabiam que todas as coisas, mesmo aquelas que são humanamente
inexplicáveis, cooperam para o bem dos que amam a Deus8. “As inspirações
do Espírito Santo, que este dom faz acolher com docilidade,
esclarecem-nos pouco a pouco sobre a ordem admirável do plano
providencial, mesmo e precisamente naquelas coisas que antes nos
deixavam desconcertados, nos casos dolorosos e imprevistos, permitidos
por Deus em vista de um bem superior”
Através do dom da sabedoria, as moções da graça trazem-nos uma grande paz, não somente para nós, mas também para o nosso próximo;
ajudam-nos a semear alegria onde quer que estejamos e a encontrar a
palavra oportuna que ajuda a reconciliarem-se os que estão desunidos. É
por isso que este dom está em correspondência com a bem-aventurança dos
pacíficos, daqueles que, tendo paz em si mesmos, podem comunicá-la aos
outros. Esta paz, que o mundo não pode dar, é o resultado de se verem os
acontecimentos dentro do plano providente de Deus, que em momento algum
se esquece dos seus filhos.
O dom da sabedoria e a vida contemplativa na nossa vida corrente.
O
DOM DA SABEDORIA concede-nos uma fé amorosa, penetrante, uma clareza e
segurança absolutamente insuspeita-das na compreensão do mistério
inabalável de Deus. Assim, por exemplo, a presença real de Jesus Cristo no Sacrário produz em nós uma felicidade inexplicável por nos acharmos diante de Deus. A pessoa “permanece ali sem dizer nada ou simplesmente repetindo umas
palavras de amor, em contemplação profunda, com os olhos fixos na Hóstia
Santa, sem cansar-se de fitá-lo. Parece-lhe que Jesus penetra pelos
seus olhos até o mais profundo dela própria…”
O normal será, no
entanto, que encontremos a Deus na vida diária, sem quaisquer
manifestações especiais, mas envolvidos pela íntima certeza de que Ele
nos contempla, de que vê as nossas tarefas e nos olha como filhos seus…
No meio do nosso trabalho, na família, o Espírito Santo ensinamos,
quando somos fiéis às suas graças, que todas as nossas ocupações são o
instrumento normal que Deus põe ao nosso alcance para que possamos
amá-lo e servi-lo nesta vida e depois contemplá-lo na eternidade. A medida, pois, que vamos purificando o nosso coração, entendemos melhor a verdadeira realidade do mundo,
das pessoas (que olhamos e tratamos como filhos de Deus) e dos
conhecimentos, participando da própria visão de Deus sobre as coisas
criadas, sempre dentro dos limites da nossa condição de criaturas.
Esta
ação amorosa do Espírito Santo sobre a nossa vida só será possível se
cuidarmos com esmero das normas de piedade através das quais nos
dedicamos especialmente a Deus: a Santa Missa, os momentos de meditação
pessoal, a Visita ao Santíssimo… E isto tanto nos dias normais como
naqueles em que temos um trabalho que parece ultrapassar a nossa
capacidade de levá-lo adiante; quando a devoção é fácil e simples ou
quando chega a aridez; nas viagens, no descanso, na doença…
E
juntamente com o cuidado em viver com esmero esses momentos mais
intensamente dedicados a Deus, não nos deve faltar o empenho por
conseguir que o pano de fundo do nosso dia esteja sempre ocupado pelo
Senhor. Presença de Deus alimentada com jaculatórias, ações de graças,
pedidos de ajuda, atos de amor e desagravo, pequenos sacrifícios que
surgem no nosso trabalho ou que procuramos por nossa conta.
“Que a
Mãe de Deus e Mãe nossa nos proteja, a fim de que cada um de nós possa
servir a Igreja na plenitude da fé, com os dons do Espírito Santo e com a
vida contemplativa. Realizando cada um os deveres que lhe são próprios,
cada um no seu oficio e profissão, e no cumprimento das obrigações do
seu estado, honre gozosamente o Senhor”.
(1)
Mt 11, 25; (2) L. M. Martinez, El Espiritu Santo, 6a ed., Studium,
Madrid, 1959, pág. 201; (3) Ef 3, 16-19; (4) Prov 8, 11; (5) Sab 7,
8-14; (6) São Tomás, Suma Teológica, 1-2, q. 112, a. 5; (7) São
Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 133; (8) cfr. Rom 8, 28; (9)
R. Garrigou-La-grange, Los três edades de Ia vida interior, 4a ed.,
Palabra, Madrid, 1983, pág. 82; (10) A. Riaud, La acción dei Espiritu
Santo en Ias almas, 4a ed. Palabra, Madrid, 1983, pág. 82; (11) São
Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 316.
Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.
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